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Lençol Branco


Hoje eu acordei e permaneci deitada, olhando para o travesseiro ao meu lado que estava vazio. Tem dias que simplesmente precisamos acordar e encontrar no olhar de outra pessoa tudo que precisamos, mas só havia o vazio ali.

Ironicamente o conforto veio de pessoas que nunca havia imaginado, pessoas que de formas silenciosas estão mais presentes na minha vida, mais do que pessoas que deveriam estar ali me confortando e dizendo que tudo ficaria bem.

Pessoas são assim, egoístas, a ponto de correr atrás daquilo que não possuem mais ou por aquilo que nunca irão ter. Deixam morrer o que estava vivo em mãos, deixam morrer o amor, a alma e sabe se lá o que mais.

As mãos ficam prezas naquele nada, presas naquele travesseiro vazio que não há mais nenhum cheiro, nenhum aroma de shampoo barato e loção de barbear.  O corpo vira de um lado para o outro, e o vazio te absorve cada vez mais, sufocando todo aquele resto de esperança de abrir os olhos e de ver você ali lutando por qualquer sorriso meu.

Os sinais veio aos poucos, a dor você fez nascer e agora ela atingiu níveis que ninguém imaginava, inclusive eu. O amor e o ódio, nada reinava naqueles lençóis brancos, apenas o vazio. Silencioso e mortal, eu era enterrada em lágrimas e decepções.

Todos os passos foram ensaiados, com capricho e devoção, mas o nada era a reposta que vinha da minha cama, da tela sem vida do celular. Gritar, chamar a atenção, chorar, enlouquecer, creio que já passei de todos os estágios, era um motor sem combustão, apenas esperando enferrujar, perder toda a força que por ali já circulou. Apenas parar o tempo... era o que mais queria, parar o tempo para que toda a dor fosse embora junto do vazio que fazia pinicar toda a extensão da minha pele.

Por alguns segundos, eu só queria escutar o barulho do motor gritar dentro de mim.

Cara ou coroa


Sexta-feira, quase 19 horas e eu ainda estava sentado naquela maldita cadeira de couro e rodinhas. Eu desejava que todos os meus sócios pulassem pelas janelas e me deixassem livre daqueles compromissos que não dependiam somente do meu esforço e habilidade em administrar uma empresa.

Odiava depender da boa vontade alheia, da dinâmica presente entre os funcionários e do meu bom humor para manter a estabilidade no local onde trabalhava. Seria mais fácil se as pessoas trabalhassem com gosto e desejo, ganhariam melhor e os problemas cairiam pela metade.

Bom, apesar de ficar devaneando no meu mundo perfeito e afrouxando o nó da minha gravata, não conseguia despregar os olhos do belo par de pernas da secretária que desfilava usando uma saia preta coladinha com um corte traseiro. Eu julgava os meus colegas, mas também me perdia naquelas pernas.

Reclamando ou não, eu sempre acabava sendo como qualquer outro dentro daquela sala. Um coiote esperando pela sexta-feira, pelas bebidas e pelas mulheres. 

Lembro que minha mãe havia perguntado se eu não procuraria alguma namorada e me casaria, pois já estava ficando velho e com alguns fios brancos. Eu disse não, não iria me atrelar tão cedo a ninguém.

Passo praticamente o dia inteiro aguentando problemas, escutando o toque irritante de inúmeros telefones, pessoas sonolentas movidas a café e cigarros. Espero pelos finais de semana para soltar o monstro que resguarda cinco dias da semana dentro de mim, nenhuma garota precisaria de um homem como eu. Pelo menos não as santinhas. 

Eu jogava no cara ou coroa. Esperava pacientemente pelas oportunidades do final de semana, e quem me dizia como vive-las era a minha moeda interna que girava entre o cara e o coroa. 

Fechei a agenda de couro e a guardei dentro da minha maleta e sai do escritório inventando uma desculpa qualquer. A minha moeda havia caído no coroa, eu seria o rei daquela sexta-feira.

Pontas duplas

              

Estava deitada de bruços, metade do meu rosto estava afundado no travesseiro macio e outra parte analisava as pontas duplas do meu cabelo. Todos os meses eu o pintava com uma tintura barata, apenas para deixá-lo sempre numa tonalidade vibrante e atraente aos olhos de que me olhasse na rua ou em qualquer outro lugar.

Queria que fosse atraente aos olhos dele, do homem que estava deitado ao meu lado e que ressonava baixinho preso no mundo dos sonhos. Ele dormia, e eu me afogava em nóias e pensamentos fúteis. Era fútil por me produzir para ele, por acordar todas as manhas e modelar meu corpo na academia pelos outros, por ele. Eu não era mais a protagonista da minha história.

Com preguiça, girei o corpo na cama e encarei o homem que estava deitado ao meu lado. Nariz empinado, barba por fazer e cabelo desgrenhado, era por aquele padrão que eu me sacrificava. Quantas vezes havia comprado um vestido que não gostava apenas para agradá-lo? Quantos jantares fiquei sem deliciar aquela sobremesa de bombom e creme para que ele não me achasse gorda? Injusto. Não era certo eu ter que deixar de lado minhas vontades e meus desejos por causa do homem que estava deitado ao meu lado.

Não, a culpa não era dele. A culpa não é dos homens, mas sim das mulheres e suas empatias ao desejarem se tornarem lindas, cada uma dentro do seu próprio estilo, para agradarem aos outros e não si mesmas. Eu não queria ser gorda e nem magra demais, queria viver na minha beleza natural, comer o que eu quisesse, ir na academia quando eu desejasse, mas já havia sucumbido aos parâmetros impostos pela sociedade devoradora de liberdade.

Permaneci deitada, os olhos fixos no homem, no torso dele que subia e descia num ritmo lento e acolhedor. Talvez fosse hora de lutar contra os meus fantasmas e deixar de lado aquilo que me privava de fazer o que eu tivesse vontade. No fundo, talvez o amor não valesse tanto, não num mundo onde o amor próprio está escasso. 

Movimentei as minhas pernas para fora da cama e vesti as minhas roupas que estavam jogadas no chão. Estava na hora de ir embora, pois eu sabia que do outro lado daquela porta maciça de carvalho a liberdade me esperava. E as pontas duplas do meu cabelo? Ah, elas que se danem.

            
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