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Cartas para Johnny

Quando foi que o relógio começou a girar no sentido inverso?

Permaneço sentada, amortecida por lembranças de um passado recente, onde horas são dias e dias são anos. Ninguém vive de inversão, somente minhas lembranças que estão pressas nesta obscura imensidão.

No retumbar do coração, os meus passos vão caminhando para atrás, cansativa corrida contra o tempo, num tempo onde tudo florescia e não sofria por sua ausência.

E enquanto o filme volta para o recomeço, percebo quantos erros foram cometidos sem humildade, sem controle, apenas movimentados pelas emoções. Cada passo, uma contradição, e aquela dorzinha no meio do peito agora é imensidão.

O som da nossa música inflama os ouvidos e desencadeia tudo aquilo que queria esquecer, de todos os sentimentos, eu só queria apagar você. O nosso filme foi lindo, foi uma pena que só você não quis assistir.

Sentada na poltrona do cinema, o título aparece grandioso, e você senta do meu lado para que tudo possa recomeçar e acabar, para que eu posso andar no descompasso inverso do relógio. E sabe aquele tic tac nervoso? É os passos que retrocedo e avanço na sua direção, meu querido Johnny.





Éden


Eu era Eva em um Éden sem maças.

Eu poderia ser a pior das mulheres, das mais charlatonas, egoístas e manipuladoras. Poderia ter seu coração, seu corpo, suas riquezas, tudo que eu quisesse, mas eu era apenas aquela mulher. A mulher simples e devota, que mesmo em um grande mar de rebeldias, apenas colocava o meu melhor batom vermelho e me vestia da forma mais simples e que mais combinasse com meu estilo descompromissado. Afinal, eu estava bem comigo mesma.

Poderia ter sido a pior das mulheres, ter lhe guiado por transas absurdas e por caminhos estreitos, mas, apenas abri o meu coração de forma inocente, pois eu não sabia o que era a verdadeira maldade. Cega diante de sentimentos pouco explorados, apenas apreciando os pequenos vislumbres de seu sorriso misterioso e de suas mãos que acariciavam delicadamente a borda do copo. 

Ah, eu não sabia lidar com os homens, eu não tinha a experiência que gostaria com eles. Algumas diziam, deixe-o em paz, se ele se interessou, ele lhe buscará. Ou, vá atrás, não deixe esse partir. Em um labirinto de metidos eu me perdia em pensamentos, e mesmo que inutilmente eu só quisesse gerar uma nova visita, um reencontro, me queimava com a falta de experiência, com o medo e com uma possível rejeição que nunca havia me inflamado até então.

Cruzei mares de inseguranças, noites mal dormidas, de lábios trêmulos esperando uma resposta qualquer, da qual nunca veio. 

Talvez, eu seja uma garota viajante, onde o amor puro esteja na dobra de uma esquina desconhecida. Gosto de sentir a terra abaixo dos meus solados e da forma que a brisa acaricia os meus cabelos contra o céu azul. Mas do mesmo jeito que eu gostava da minha liberdade, toda vez que olhava para o lado e via aquela estrada vazia, eu desejava alguém do meu lado da mesma forma descompromissa que eu via a vida.

Estava perdida, esperando que você simplesmente viesse vestindo a sua surrada jaqueta de couro e me levasse de forma rápida por aquele caminho que tanto gostava de percorrer sozinha. Pela primeira vez, eu não me via de forma isolada, eu queria que alguém estivesse disposto a conhecer a verdadeira beleza e simplicidade da vida. 

O Éden não estava tão longe assim, apenas alguns gestos, algumas brechas para que a vida ganhasse um novo significado. Enquanto as maças apodreciam no chão, eu caminhava confusa pelo jardim, as lágrimas coloriam minha face e meu colo, eu não conseguia me controlar. Seria tão errado viver uma obra prima?

Uma garota com sede de viver, ansiando uma ligação, uma buzina inesperada na madrugada. Uma garota triste, perdida na sua própria inocência, criando raízes nos portões de entrada do Éden.

Copo de Whisky


O gelo tintilou no meu copo de whisky, e eu apertei os lábios com força para que o álcool não me derrubasse naquela mesa de bar.

Já não fazia ideia de como estava o clima lá fora, não sabia se ainda era cedo ou tarde. Na verdade, pouco me importava com o que acontecia lá fora, pois o problema estava aqui dentro, preso na minha garganta.

Peguei o maço de cigarros que estava dentro do bolso das calças, mas antes mesmo de pegar o isqueiro, um assobio alto de um dos bartender me fez largar tudo ali mesmo. Eu queria ir lá e vomitar na cabeça daquele careca, mas não haviam forças nos meus joelhos para criar qualquer confusão.

As pessoas me olhavam com repulsa e eu sorria de forma sarcástica, erguendo o copo para o alto, mentalizando para que eles se fodessem. Ah, eu era realmente desprezível, e eu gostava disso. Talvez daí que vinha o meu charme com as mulheres, ou nem tanto. 

Eu não sabia exatamente o que eu estava fazendo ali, mas acreditem, os homens também podem ficar chateados e sofrer por causa de uma vadia que engoliu o seu coração. Mas diferente das mulheres que ficam em depressão por uma semana, os homens saem, bebem e trepam no que vier. Ok, nem todos fazem isso.

E eu ia fazer, com a gordinha sedutora que me olhava do outro lado da mesa.

Finais


Tirei os calçados e me joguei sobre o colchão de molas que rangeu. Eu estava desnorteada, minha mente estava zonza e as lágrimas teimavam em manchar a minha maquiagem. Girei meu rosto pela colcha bege e a manchei com batom vermelho, queria gritar e me lamentar pela fraqueza que me apossava por um nada amor.

Não lembro quanto tempo permaneci chorando, mas se continuasse naquele ritmo eu iria naufragar ali mesmo, deitada sobre um mar de decepções e medos. Enquanto tentava manter o controle, meus olhos castanhos estavam pregados na penteadeira, principalmente no espelho oval que havia nele. Eu observava uma garota derrotada, com o rosto manchado de pouco amor próprio, de horas desperdiçadas com alguém que não merecia sequer um doce olhar.

Eu odiava as coisas do coração, porque o amor sempre me feria mais do que o ódio. Mais do que tudo.

Andei dias e dias por lugares vazios, por caminhos solitários em quais ninguém conseguia chamar a atenção, onde pessoas não passavam de pessoas. Porém, esta abstinência não durou para sempre.

Era como se nuances o contornassem, e nas trocas do claro e escuro, ele se destacava como uma estrela luminosa e mortal.

Não lembro direito, mas suas mãos firmes e ásperas tocaram a minha pele com firmeza, afastando-me ainda mais da realidade que nos cercava. Estávamos no jogo de trocas, de caricias, de brigas, do proibido, era uma fonte inesgotável de inspiração e arrependimentos. Dizem que nunca é tarde para reconsiderar, mas para mim sempre era tarde. Eu sempre estava atrás do tempo e atrás das oportunidades.

Inutilmente eu me sentei sobre a cama e deixei que minhas mãos deslizassem pelo tecido de linho, pelas lembranças que estavam impregnadas sobre a minha pele.

Não estava frio, mas o frio me apossava e arrepiava os cabelos da minha nuca. Continuei deslizando minhas mãos pelo colchão até encontrar a dele, dura e fria.

Aproximei meus lábios de seu corpo imóvel e lhe beijei sobre os dedos rijos. De alguma forma ou outra, sempre haveria um final.

Finais traiçoeiros, finais solitários, finais vermelhos.

Apesar das circunstâncias, era eu que estava morta sobre aquela cama de molas, a faca invisível estava na minha garganta, e não na dele, como todos iriam imaginar.

Eu dedilhei as pontas dos seus dedos com os meus, como se fossem teclas de um imponente piano. Deixei o corpo tombar e fechei os olhos esperando meu inconclusivo final.

Facetas da educação

Esquecido no calendário, o dia 15 de Outubro é considerado o Dia do Professor no país. Não vemos campanhas, artigos ou o destaque necessário para o ato de lecionar. Ato importantíssimo e que, infelizmente, sempre é banalizado pela sociedade e pelos seus governantes.

Possuímos consciência de que a educação no Brasil deve passar por grandes reformas de gestão e aprimoramento através de professores e escolas qualificadas, mas não é o que vemos na prática. Há professores acomodados e com o conhecimento da década passada, desatualizados e com poucos cursos de aperfeiçoamento, retardando o ensino/aprendizagem em sala de aula. Escolas sem recursos e sem apoio a cultura tornam-se maçantes e gera futuros cidadãos carentes nos setores criativos, intelectuais e sociais. Saber ler e calcular não é o bastante, professores devem estimular a interpretação de fatos, acontecimentos da atualidade, fazer com que haja compressão sobre o porquê do mundo estar como está, o porquê do Brasil estar em processo de mudança através dos protestos e paralisações, desbravar a Constituição Federal e apresentar as “gambiarras” da Republica. 

 

Fonte: Chargeonline

Ter a titularidade de docente não é somente exercer uma profissão, é criar mentes e auxiliar na construção de uma identidade dentro da sociedade. Você só está lendo este artigo, pois passou pelos ensinamentos de algum professor. A presidente, os ministros, os advogados, o encarte que foi colocado dentro da sua caixinha de correio foi escrito por alguém que já passou pelos ensinamentos de algum professor. Há sim pessoas analfabetas funcionais, pessoas que conseguem negociar e até mesmo iniciar um negócio próprio sem nunca ter pisado os pés numa escola, mas como disse, lecionar é um ato muito maior do que transmitir conhecimento, é gerar humanos pensantes e que consigam aguçar o lado crítico, social e moral.

Não é todos que nascem em “berço de ouro” e possuem mãe e pai, comida e respeito dentro de casa, há famílias carentes de afeto e de higiene, problemas financeiros e com distúrbios psicossociais, transformando o professor na única base do aluno, vulgo, futuros cidadãos brasileiros. Ser professor é estar apto a enfrentar várias realidades e estar disposto a trabalhar sobre todas elas, sem distinções.


Fonte: Tiras Armandinho

Estamos cansados do dialogo repetitivo e sofrido de que o salário não compensa os esforços de lecionar, – é pura verdade –, professores também possuem uma vida fora das instituições de ensino, mas os mesmos não devem abandonar os objetivos que o levaram a seguir esta profissão. Eu como docente, ingressei na carreira acreditando que poderia auxiliar na construção de um país melhor, que fuja do sensacionalismo barato e crie pessoas racionais e autônomas, que não sejam enganadas pelo governo e pela mídia. Acredito que o Brasil não está atrás de nenhum país, o potencial está presente, mas deve ser lapidado para que possa se tornar visível e exemplar aos olhos do mundo. 

“No Japão, o único profissional que não precisa se curvar diante do imperador é o professor, pois segundo os japoneses, numa terra que não há professores não pode haver imperadores”.

No início do ano a frase citada a cima caiu nas redes sociais do Brasil e se tornou contagiosa nos “diplomáticos” de plantão, o quê não passa de ilusão. É verdade que os professores no Japão são respeitados e possuem grande cargo dentro do sistema social e cultural do país. Professores da rede pública e privada, ambos são concursados e ganham relativamente bem para os padrões japoneses e são altamente respeitados, mas autoridade máxima é o Imperador. Tal mentira tornou-se sólida entre os brasileiros para enraizar a cultura de que o professor é a chave fundamental para a evolução gradativa de um país. Novamente a sociedade se apoia em mentiras, se apoia em outras culturas para sanar/ocultar os próprios defeitos que devem ser apresentados e solucionados de forma funcional e de acordo com o perfil de nossa bagagem cultural.


Fonte: -

Esquecido ou não, ser docente é algo digno de atenção especial, porque para chegar no auge social ou profissional, o caráter foi desenvolvido ao longo dos anos escolares e o seguirá até o dia de sua morte. 

Agradeça mentalmente aos seus professores por ler este artigo e refletir sobre cada palavra lida. Ninguém é feito somente de carne e osso, também somos feitos de escolhas e intelecto, por isso prezo sobre a valorização da docência e por um ensino de qualidade seja nas escolas públicas ou privadas. Seja nos anos iniciais ou no mestrado.

Mente masculina


Hoje me perguntaram como consigo entender a mente masculina, e a resposta é simples. Eu não entendo, apenas não me importo. Não me importo com a mente masculina e feminina.

Canso de escutar garotas julgando rapazes, o porquê deles estarem fazendo aquilo e não o óbvio ou o correto (para algumas garotas, é claro). A verdade é que ninguém é igual, possuímos identidade, seja julgada como certa ou errada pela ética imposta ao longo dos séculos pela sociedade. 

Pessoas são diferentes, possuem passados distintos, experiências únicas das quais nunca compreenderemos a finco. As pessoas nascem e se formam, elas desenvolvem suas próprias essências, traumas e felicidades, coisas que muitas vezes são ocultadas e conhecemos somente a “persona pública”.

Claro que, analisar uma pessoa, seus gostos, seus trejeitos, cheiros e formas que ela se comporta dentro da sociedade, seja entre amigos, no trabalho ou amorosamente é normal, todo mundo faz. O grande problema é quando se transforma em preconceito, muitas vezes inconsciente. 

Milhares de pessoas julgam todos os dias o porquê daquela pessoa ser antissocial no telefone, o porquê dele não amar ela, o porquê dela se preocupar demais com o cabelo, etc. A realidade é que, o problema é dela e ela faz o que quiser. Quem deve tomar consciência é a própria pessoa que julga os atos alheios, esquecendo que a mesma também faz coisas que pode desagradar/encantar outras pessoas.

Todos possuímos inteligência suficiente para sabermos com quem andamos, se o que ele faz é certo ou errado o problema é dele, só devemos respeitar sem dar pitacos desnecessários. Uma crítica construtiva, sem ser ofensiva, com o verdadeiro desejo de ajudar é sempre bem vinda, mas não encontramos isso com facilidade.

Hoje parece um hobby julgar a mente dos homens, e isso é errado. Devemos tentar compreende-los, assim como eles devem tentar compreender a mente feminina. Pessoas são distintas, não importa se é homem ou mulher, não é gênero que faz a pessoa, mas sim a personalidade que ela cultivou durante os anos.

Cara ou coroa


Sexta-feira, quase 19 horas e eu ainda estava sentado naquela maldita cadeira de couro e rodinhas. Eu desejava que todos os meus sócios pulassem pelas janelas e me deixassem livre daqueles compromissos que não dependiam somente do meu esforço e habilidade em administrar uma empresa.

Odiava depender da boa vontade alheia, da dinâmica presente entre os funcionários e do meu bom humor para manter a estabilidade no local onde trabalhava. Seria mais fácil se as pessoas trabalhassem com gosto e desejo, ganhariam melhor e os problemas cairiam pela metade.

Bom, apesar de ficar devaneando no meu mundo perfeito e afrouxando o nó da minha gravata, não conseguia despregar os olhos do belo par de pernas da secretária que desfilava usando uma saia preta coladinha com um corte traseiro. Eu julgava os meus colegas, mas também me perdia naquelas pernas.

Reclamando ou não, eu sempre acabava sendo como qualquer outro dentro daquela sala. Um coiote esperando pela sexta-feira, pelas bebidas e pelas mulheres. 

Lembro que minha mãe havia perguntado se eu não procuraria alguma namorada e me casaria, pois já estava ficando velho e com alguns fios brancos. Eu disse não, não iria me atrelar tão cedo a ninguém.

Passo praticamente o dia inteiro aguentando problemas, escutando o toque irritante de inúmeros telefones, pessoas sonolentas movidas a café e cigarros. Espero pelos finais de semana para soltar o monstro que resguarda cinco dias da semana dentro de mim, nenhuma garota precisaria de um homem como eu. Pelo menos não as santinhas. 

Eu jogava no cara ou coroa. Esperava pacientemente pelas oportunidades do final de semana, e quem me dizia como vive-las era a minha moeda interna que girava entre o cara e o coroa. 

Fechei a agenda de couro e a guardei dentro da minha maleta e sai do escritório inventando uma desculpa qualquer. A minha moeda havia caído no coroa, eu seria o rei daquela sexta-feira.

Canalha


Os pingos de chuva molham o meu calçado preferido, mas permaneço recostado contra a parede de cimento. Os minutos passam e o cigarro vai virando chamuscas e cinzas entre os meus dedos. Eu queria vê-la descer as escadas com seu gingado espanhol, apertar a carne macia de seu traseiro. Queria fazer muitas coisas com aquela mulher. Porém, ela havia me deixado na chuva, como se eu nunca tivesse ocupado algum espaço em sua vida.

Convenhamos que não sou o homem mais confiável e cortês, mas o jogo que começou como um passatempo se transformou numa obsessão de tê-la em minha língua e entre suas pernas. Fracassei, pois nem trajado de ouro aquela morena me desejava. 

O homem pensa com a cabeça que está logo abaixo da cintura, é verdade e não há como negar. Há também outros elementos que intensificam o desejo sexual por outra pessoa, não vou querer transar com uma garota antipática só por um sexo oral bem feito. Quero encontrar nos olhos dela fogo e desejo, quero ter a virtude de saciar o melhor de seu corpo e de sua mente. 

Não gosto de ser comparado com canalhas, não sou um deles. Eu amo, e consigo amar aquilo que as garotas me oferecem de bom grado. 

O problema é quando permaneço preso a uma pessoa, aquela que me  faz refletir sobre uma vida inteira. Aquela que me condena com olhares, que vira as costas balançando seu longo cabelo escovado e seu bumbum empinado. Aquela que está longe de ser perfeita, mas que atiça todas as minhas terminações com uma explosão de hormônios. É sempre aquela pessoa que te olha com olhos aniquiladores e te exclui por não ser o príncipe dos sonhos, mesmo que ela seja o que você deseja. 

Fujo como um covarde da garota que me energiza, que me repreende, que durante os meus banhos alucino arrancando suas roupas mais intimas. Busco em outras o que encontro em você. Quero sexo e quero amor, mas sou covarde. Vou sair dessa chuva e procurar em outras bocas o que desejo da sua.

É assim que vou cultivando minha fama de canalha, enquanto me apaixono por uma morena que nunca caíra nos meus encantos de Don Juan. 
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