Pontas duplas

              

Estava deitada de bruços, metade do meu rosto estava afundado no travesseiro macio e outra parte analisava as pontas duplas do meu cabelo. Todos os meses eu o pintava com uma tintura barata, apenas para deixá-lo sempre numa tonalidade vibrante e atraente aos olhos de que me olhasse na rua ou em qualquer outro lugar.

Queria que fosse atraente aos olhos dele, do homem que estava deitado ao meu lado e que ressonava baixinho preso no mundo dos sonhos. Ele dormia, e eu me afogava em nóias e pensamentos fúteis. Era fútil por me produzir para ele, por acordar todas as manhas e modelar meu corpo na academia pelos outros, por ele. Eu não era mais a protagonista da minha história.

Com preguiça, girei o corpo na cama e encarei o homem que estava deitado ao meu lado. Nariz empinado, barba por fazer e cabelo desgrenhado, era por aquele padrão que eu me sacrificava. Quantas vezes havia comprado um vestido que não gostava apenas para agradá-lo? Quantos jantares fiquei sem deliciar aquela sobremesa de bombom e creme para que ele não me achasse gorda? Injusto. Não era certo eu ter que deixar de lado minhas vontades e meus desejos por causa do homem que estava deitado ao meu lado.

Não, a culpa não era dele. A culpa não é dos homens, mas sim das mulheres e suas empatias ao desejarem se tornarem lindas, cada uma dentro do seu próprio estilo, para agradarem aos outros e não si mesmas. Eu não queria ser gorda e nem magra demais, queria viver na minha beleza natural, comer o que eu quisesse, ir na academia quando eu desejasse, mas já havia sucumbido aos parâmetros impostos pela sociedade devoradora de liberdade.

Permaneci deitada, os olhos fixos no homem, no torso dele que subia e descia num ritmo lento e acolhedor. Talvez fosse hora de lutar contra os meus fantasmas e deixar de lado aquilo que me privava de fazer o que eu tivesse vontade. No fundo, talvez o amor não valesse tanto, não num mundo onde o amor próprio está escasso. 

Movimentei as minhas pernas para fora da cama e vesti as minhas roupas que estavam jogadas no chão. Estava na hora de ir embora, pois eu sabia que do outro lado daquela porta maciça de carvalho a liberdade me esperava. E as pontas duplas do meu cabelo? Ah, elas que se danem.

            
Share:

Nenhum comentário:

Postar um comentário

© CONDAMNÉ All rights reserved | Theme Designed by Seo Blogger Templates